Fluam Minhas Lágrimas, Disse o Policial, de Philip K. Dick.

711j3yepj9lSeguindo o meu projeto de leitura de todos os livros do Philip K. Dick lançados no Brasil, teremos como tema do post de hoje a obra Fluam Minhas Lágrimas, Disse o Policial (doravante, apenas Fluam…), publicado originalmente em 1974.

Já foi publicado no Brasil anteriormente por outras editoras com o títulos bizarros como: Identidade Perdida, O Homem que Virou Ninguém, Vazio Infinito… Afff… Não sei porque algumas editoras fazem isso!

Mais uma leitura incrível do autor, que, desta vez, pega o leitor pelo emocional. A propósito, eu estava com saudade de fazer uma resenha escrita! 

Acho que de tanto falar em PKD, sua apresentação é desnecessária. Em todo o caso, criei uma categoria só para os posts relacionados ao meu autor de scifi favorito, cata o link, clicando na cara dele:

philipdick

SINOPSE DA EDITORA:

No romance Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial, Dick explora os limites entre percepção e realidade, criando uma impressionante distopia na qual Jason Taverner, um dos apresentadores mais populares da TV, um dia acorda sozinho num quarto de hotel e percebe que tudo mudou; que se tornara um ilustre desconhecido. E pior. Descobre que não há qualquer registro legal de sua existência.

Dividido agora entre duas realidades, ele vê-se obrigado a recorrer ao submundo da ilegalidade enquanto tenta reaver seu passado e entender o que de fato aconteceu, dando início a uma estranha busca pela própria identidade.

Ao unir à trama desconcertante uma sensível incursão no comportamento e nas emoções humanas, Philip K. Dick prende o leitor e faz desse livro um de seus trabalhos mais comoventes. Escrito em 1974, Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial foi indicado aos prêmios Nebula, em 1974, e Hugo, em 1975, ano em que venceu do prêmio John W. Campbell como melhor romance de ficção científica.

Resenha e experiência de leitura:

Em Fluam… conheceremos o cantor e apresentador, geneticamente modificado, visto por mais de 30 milhões de pessoas, Jason Taverner, ter sua vida completamente mudada depois de um incidente quase fatal envolvendo sua ex-amante, após o qual ele acorda num quarto de hotel decadente, na mesma cidade, no mesmo tempo, com muito dinheiro, mas com uma grande diferença: ninguém o conhece.

Mas o que será que fez com que PKD escrevesse uma trama na qual o personagem principal perde tudo, inclusive sua identidade?

Viver é ser caçado.

Antes de responder a pergunta, quero esclarecer apenas uma questão: tudo o que eu disser aqui são especulações, elucubrações. Não estudei a vida de PKD a fundo ainda. O que vou dividir com os dois leitores desse glorioso blog é apenas uma síntese da biografia que li do autor, com alguns de meus sentimentos, ok?

Antes de abandonar o manuscrito de Fluam…, PKD passou por mais uma separação. Mas também teve uma de suas grandes paranóias concretizada: sua casa arrombada e assaltada, ocasião em que os bandidos utilizaram um explosivo para abrir seu arquivo. Por sorte, o manuscrito de Fluam… estava com seu agente.

A verdade, ele costumava refletir, era superestimada enquanto virtude. Na maioria dos casos, uma mentira complacente fazia mais bem e era mais piedosa.

Ao tentar comunicar as autoridades, PKD foi desacreditado, pois todos sabiam de sua paranoia e seus problemas com as anfetaminas. O policial chegou a dizer que tudo o que ele dizia era invenção dele. Depois de muito tempo apareceram à cena do crime apenas para acusá-lo de ter feito tudo aquilo.

Bem, pelo visto, assim como Taverner, PKD estava perdendo tudo: sua mulher, seus bens e sua legitimidade, mesmo na fase da pira. Será que isso não foi uma grande inspiração?

Jason, o sofrimento é a consciência de que você vai ter de ficar sozinho, e não existe nada além disso, porque estar sozinho é o destino máximo e final de toda criatura viva. A morte é isso, a grande solidão.

Tanto foi que no futuro representado na obra, o governo americano é exercido pela polícia, que o conquistou após uma grande guerra civil. E o medo de Taverner é acabar num campo de trabalhos forçados, pois somente os condenados e o estudantes foragidos é que andam sem identificação pelos lugares. Só que o caso do nosso personagem é ainda mais intrigante: todos os seus dados de identificação simplesmente desaparecem de todos os registros públicos e privados. É como se ele nunca tivesse nascido. Ele se torna uma despessoa. Para evitar que as autoridades o levem para a escravidão, ele procura uma falsificadora de documentos bem ninfomaníaca e corrupta.

A situação dele acaba chamando a atenção do general da polícia, Felix Buckman, que acha tudo muito esquisito e passa a dar um tratamento diferenciado para o caso. Um policial que nunca faz os procedimentos de rastreio (implantação de chips, microfones e outras microparafernalhas no corpo do cidadão investigado) para não se comprometer, delegando a atividade para outras pessoas. Buckman também tem uma relação bastante peculiar com Alys, sua irmã, que tem um papel determinante na trama, assim como todas as outras mulheres que aparecem no livro.

Mas o sofrimento diante da perda, isso é morrer e estar vivo ao mesmo tempo. Portanto, é a experiência mais intensa e absoluta que você pode ter.

Elas desnudam os homens da trama, expõem seus sentimentos, suas virtudes, suas torpezas e suas fraquezas. Curiosamente, são cinco mulheres e PKD estava saindo da quarta esposa e prestes a conhecer a quinta quando escreveu este livro!

Ver um personagem como Buckman chorando aos borbotões por ter perdido o que amava pega o leitor de surpresa, até mesmo o próprio personagem se surpreende ao ter contato com os seu sentimentos.

O sofrimento é o resultado final do amor, porque é o amor perdido.

Aliás, como é comum na obra de PKD, a trama é menos importante que as ideias que ele deixa para o leitor refletir. Aqui eu poderia dar o maior dos spoilers que a leitura do livro não deixaria de ser interessante.

Nesta obra, ele inunda o leitor com questões sentimentais, questiona a viabilidade de ter sentimentos, como o amor, e o papel das perdas (e das derrotas) na vida do ser humano. Um conjunto de ideias pessimistas sendo confrontado com ideias positivas, vindas de uma das mulheres que esbarram na vida de Taverner.

O sofrimento faz com que você se reunifique com aquilo que perdeu. É uma fusão. Você vai junto com a coisa ou pessoa amada que está partindo. De certo modo, você se separa de si mesmo para segui-la, acompanhando-a em uma parte da jornada. Você a segue até onde é possível ir.

Os sofrimentos causados pelas perdas e derrotas são vistos como ferramentas para se adaptar à morte: a maior das perdas, o maior dos sofrimentos. Então, segundo essa ideia, não vale a pena amar se ao fim tudo está condenado, conclui Taverner.

Essa discussão, na minha opinião, é o ponto alto da trama e revela que PKD estava numa fase mais emotiva, mas sempre questionando a realidade e o que é ser humano, por meio, nesta obra, da droga (que leva os personagens a uma pira que só ele consegue criar e descrever), corrupção, incesto,  violência, racismo, eugenia, genocídio, um sistema de dominação, homossexualidade e uma carreta de emoções…

quando isso acontece repetidas vezes na vida, uma parte muito grande do seu coração finalmente se perde, você não consegue mais sentir dor. Aí você mesmo está pronto para morrer. Você vai subir a escada inclinada, e outra pessoa ficará para trás, sofrendo a sua perda.

Outro ponto bastante interessante nesta obra é que o antagonista é um personagem tão interessante quanto o protagonista. E ainda juntam com as mulheres cheias de personalidade… É um livro pra se devorar, embora ele demore um pouco a engrenar no início.

Muitos temas adultos (alguns bem pesados), tratados de forma não muito aprofundada nesta distopia incrível, mas que levam, juntamente com as outras ideias, àquela ressaca literária bem reflexiva.

Toda a trama se passa em apenas dois dias, num futuro situado no fim da década de 80. E nem preciso dizer que o final, quando o autor revela o motivo de tudo o que está acontecendo, é daqueles totalmente surpreendentes. A obra tem suas pontas soltas, mas, como afirmei anteriormente, as ideias são mais importantes que uma trama perfeitamente arrematada quando se trata de Philip K. Dick.


Conselho do tio: É possível fazer dois paralelos com a obra de George Orwell neste livro: um diz respeito à influencia distópico de 1984, leitura obrigatória para qualquer nerd. A outra diz respeito à mescalina, objeto da orwelliana As portas da percepção e céu e inferno: é que PKD relata uma experiência com a droga muito próxima à relatada por Orwell. Também tem uma ligação muito perceptível com o Homem que Caiu na Terra, de Walter Travis, uma das melhores leituras que fiz NA VIDA;  também com Nós, de Ievguêni Zamiátin; e, por fim, com Solaris, de Stanislaw Lem, todas pelo teor emotivo das obras. Indico também essa resenha do blog Cooltural, para quem quiser saber mais sobre esta obra.

Nota: Não vou mais dar notas aqui no blog. Mas se você faz questão de ver as estrelas, pode visitar meus perfis no Skoob ou no Goodreads. Depois não diga que a culpa é delas.

Adquirido em: 16/03/2016.

Lido: 01 a 12/08/2018.

Formato: ebook.

Plataforma: Kindle.

Quanto paguei: R$12,88, na Amazon.

Editora/Selo: Aleph.

Livros relacionados: As portas da Percepção e Céu e Inferno; O Homem que Caiu na Terra; Nós.

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