UBIK, de Philip K. Dick.

Mais uma leitura incrível de uma obra do doidinho! Depois do pulo!

Sobre o autor:

Philip K. Dick, né mores… Dispensa apresentações aqui nesse blog!

Mas pra quem comeu mosca, vou apresentar o doidinho de novo!

Philip Kindred Dick nasceu nos Estados Unidos, em 1928. Ao longo de sua vida e de sua carreira, nunca deixou de suspeitar do mundo a sua volta, em aparência e essência. O profundo questionamento da condição humana e da verdadeira natureza da realidade tornou-se uma marca indelével de sua obra. Tanto que a ficcionista Ursula K. Le Guin chegou a considerá-lo o Jorge Luis Borges norte-americano. Embora não tenha tido o justo reconhecimento em vida, várias de suas obras tornaram-se conhecidas ao serem roteirizadas e transformadas em grandes sucessos do cinema, como o clássico Blade Runner, baseado no romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?. O Vingador do Futuro, Minority Report e Os Agentes do Destino, entre outros filmes, foram inspirados em contos de Dick. Autor de mais de 120 contos e 36 romances, entre eles Valis, Ubik, Os Três Estigmas de Palmer Eldritch e os premiados O Homem do Castelo Alto e Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial, Philip K. Dick morreu em 1982, aos 53 anos, em decorrência de um acidente vascular cerebral.

Para saber mais veja o site da Editora Aleph!

Sinopse da editora:

Publicado pela primeira vez em 1969, Ubik, de Philip K. Dick foi considerado pela revista Time, em 2005, um dos 100 melhores romances escritos em língua inglesa.

Em uma sociedade futurista, Glen Runciter é dono de uma empresa responsável por rastrear psis, indivíduos com habilidades especiais, como telepatas e precogs. Ele e seus funcionários caem na armadilha de uma empresa rival, e Runciter morre. Seus funcionários passam a receber estranhas mensagens de Runciter em moedas e embalagens de cigarro. O tempo começa a retroceder e eles terão que lutar contra a degeneração física e mental. A solução pode estar no spray Ubik, mas conforme a trama se desenvolve, menos fica claro quem realmente precisa ser salvo.

Ubik é uma das mais divertidas obras de PKD, mas também leva ao leitor uma teoria sobre uma das grandes questões do homem: o que acontece após a morte?

Resenha e experiência de leitura:

Em certo sentido, toda vida pode ser chamada de “acidente”.

Não pretendo aqui revelar detalhes do enredo, mas sim dar elementos para que o leitor compreenda melhor a obra. PKD não é fácil de ser interpretado, e você só se familiariza com ele lá pelo terceiro livro e sabendo um pouco sobre sua vida. Para isso, eu recomendo alguma de suas biografias lançadas no Brasil, já falei sobre uma delas aqui no blog. Então, algumas pistas podem ser reveladas aqui (não chegam a ser spooooooooooooooooilers, mas fica o alerta!), mas não direi nada sobre o plot, para compensar um pouco.

Além disso, recomendo fortemente a leitura do Capítulo 13 (Onde Vivem os Mortos), do livro Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos, a Vida de Philip K. Dick, que detalha e relaciona a vida pessoal de PKD a UBIK. Mas a leitura da biografia deve ser feita depois da leitura de UBIK, porque lá tem spoilers gigantescos.

Se você espera uma ficção científica repleta de extraterrestres, guerras entre planetas, exploração espacial, definitivamente, Philip K. Dick (PKD) não é pra você. A ficção científica de PKD também não é Nutella, aquela cheia de referências pop, exageros da realidade que vivenciamos hoje, como ocorre em O Jogador Nº 1.  E nada contra a Nutella! É uma delícia!

PKD é raiz! Raiz forte! Creio que em sua época ele seria um entusiasta da literatura de ideias, hoje é considerado um clássico. Li em algum canto que ele seria, inclusive, o hippie da ficção científica de sua época, o diferentão. É meio que um exagero, mas tem seu sentido, pois ele sempre imaginava uma nova realidade a partir de sua experiência de vida, regada com problemas conjugais, questões espirituais, condições psiquiátricas e muita anfetamina.

O tempo dos valores humanos, da compaixão e do simples afeto retornará.

Em UBIK, que se passa no ano de 1992, nos deparamos com mais um alter ego do doidinho, o lascado da vida do Joe Chip. Endividado ao ponto de não poder pagar centavos para abrir a porta de sua casa. Em UBIK, uma sociedade é desenhada por PKD, na qual o consumo é DEUS. Ele determina a vida das pessoas e está em todos os lugares e circunstâncias. Atividades irrelevantes do nosso cotidiano, que nos passam despercebidas, em UBIK precisam ser pagas, como um simples abrir de porta.

Na vida real, PKD estava em dívidas com o fisco. Seu trabalho não lhe rendeu frutos no tempo que ele mais precisou. E isso o deixava mais incomodado, frustrado… Excelentes combustíveis para seus problemas mentais, como a paranoia e a esquizofrenia. PKD chegou a questionar a própria existência, sua vida (ou sua morte), colocando em dúvidas se ele mesmo estaria vivo ou morto (tanto é que Jory, que conheceremos daqui a pouco, é um menino). E, se não estivesse vivo, como seriam seus pensamentos do “outro lado”? Há existência após a morte? Muitos são os questionamentos e as ideias presentes na obra. Mas adianto que nem todas são respondidas. Cabe ao leitor tirar as próprias conclusões.

Aliado a isso, há também um aspecto religioso, relacionado à morte, reencarnação, espiritualidade, na qual os mortos são colocados em semivida por empresas especializadas, para que sua mente remanescente, mantida em estágio de funcionamento mínimo por meio do congelamento do corpo físico, possa aconselhar os vivos, enquanto seu espírito não reencarna. Reflete um apego ao ente querido que subiu no telhado. Ora, sabemos que PKD perdeu sua irmã gêmea ainda bem criança por desnutrição e, sua ausência o acompanhou durante toda a sua vida. Ela pode ser representada na figura de Jory, um espírito de um menino gêmea faminto, porém ainda cheio de energia. Jory é a surpresa do livro, pois, quando ele aparece, ninguém dá nada por ele, mas uma hora ele se revela! Sapequinha!

Outro conceito presente nesta obra incrível é o da entropia. Parece que ela dominava mesmo a vida real de PKD. Sua casa era o reflexo de sua mente, uma verdadeira desordem. Uma vida levada pela incerteza, pela aleatoriedade. Na obra, a entropia afeta a realidade que serve como plano de fundo. O tempo regride, mas não altera a idade das pessoas e nem o decurso dos fatos. Mas os objetos e as tecnologias regridem para o seu status anterior histórico. Por exemplo: a TV supermoderna vai regredindo para o rádio e desaparecer, assim como os elevadores movidos por uma tecnologia super avançada retorna à geringonça movida a manivela. Os carros voadores regridem até ao ponto das carruagens… E os personagens tentam sobreviver e entender o que está se passando com suas realidades desde que um acontecimento trágico muda o curso de suas vidas.

Acho que esses processos vão em direções opostas. Um é um afastamento, por assim dizer. Um deixar de existir. Esse é o processo um. O segundo processo é um vir a existir. Mas de algo que nunca existiu antes.

UBIK é a solução para tudo! Está em tudo. É o consumo. Se o consumo é a divindade, UBIK é ela. Só que UBIK também sofre com a entropia. Um grande paradoxo! E não é o único do livro, o que torna a leitura bastante divertida, pois se quebram certas lógicas as quais estamos acostumados. Mas se compreende o que PKD questiona. Uma bagunça compreensível, que serve para questionar avanços e retrocessos da sociedade, em seus diversos campos: material, espiritual e, sobretudo, o moral. Como o ser humano é capaz de progredir em determinados momentos e se degradar em outros, apesar (ou, muitas vezes, por causa) dos avanços científicos e tecnológicos.

Outra ideia que se pode tirar da leitura é a de que o tempo presente não existe, por ser uma imagem muito recente do que passou. E o devir é apenas expectativa até que se transforme em passado em um instante impossível de se dimensionar. Logo, o tempo existe? Mas os corpos se deterioram com o passar do tempo. Por quê? Seria mesmo a ação do tempo? Jory explica!

O que rege nossa vida está no plano material ou espiritual? Como mencionado, a realidade material é alterada a todo o momento, ditada pelo que está do outro lado. E num determinado momento, elas se fundem EM-UMA–LA-TA–DE-SPRAY! Que doideira! Que incrível! Neste momento, digito com os pés porque as mãos estão aplaudindo o gênio PKD!

PKD, mais uma vez, imaginou um futuro com coisas que conhecemos muito bem hoje. A obra foi escrita na década de 60. No 1992 de PKD teríamos aerocarros, dispositivos de personalização de conteúdo (as máquinas de homeojornais, que correspondem à Internet, aos tablets), o vidfone, máquinas de venda automáticas… Ele imaginou também consequências não muito agradáveis decorrentes da tecnologia. A principal delas é a falta de privacidade. Empresas, na obra, contratam precogs e telepatas para definir padrões de consumo da população. Hoje não temos esses seres humanos com capacidades psíquicas sendo escravizados pelas empresas para obterem lucro, mas temos o grande senhor algoritmo de vendas. E caímos como gatinhos curiosos nas garras dessa grande ferramenta do capitalismo.

Uma entidade irresponsável que se diverte com o que está fazendo conosco. O modo como está nos matando um a um.

Mais uma vez PKD me surpreende! Um livro que é muito sobre ideias e pouco sobre fatos!

Se você gostou de Lost e curtiu o filme Inception (A Origem), irá gostar muito desse mergulho bem humorado e cheio de ironias que é UBIK.

Simplesmente incrível! E o final propositalmente inconcluso deixa o leitor pensando bastante, até ficar com a mente em frangalhos após ter sido detonada talvez por uma bomba humanoide de autodestruição. Ou seria por uma manipulação realizada por algo do “outro lado”? UBIK não explica. Apenas faz outra pergunta.

Tenha uma excelente leitura!

Conselho do tio: é PKD, tem que ler! Ao menos tentar. Essa é uma ótima obra introdutória ao universo do maluquete.

Nota: Não vou mais dar notas aqui no blog. Mas se você faz questão de ver as estrelas, pode visitar meus perfis no Skoob ou no Goodreads. Depois não diga que a culpa é delas.

Adquirido em: 03/12/2016.

Lido: 01 a 05/06/2018.

Formato: ebook.

Plataforma: Kindle.

Quanto paguei: NADA! Usei um cupom incrível!

Editora/Selo: Aleph.

Livros relacionados: Este livro tem uma ligação bastante estreita com “Os Três Estigmas de Palmer Eldritch”. Obviamente, toda a obra de PKD possui uma linha que a costura, logo, não vou citar todos os livro dele aqui. E não sei dizer mais nada relacionado na mesma pegada de PKD, mas, sobre manipulação do tempo, temos: Operação Cavalo de Troia e Uma Dobra no Tempo.

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