[Maratona 💀] Warriors – Os Selvagens da Noite, de Sol Yurick.[S03E01]

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Olá pessoal! O assunto de hoje é a violência, aquela gratuita e, a depender do ponto de vista, até compreensível, porém não justificável.

Antes de tudo o mais, aviso aos mochileiros desta galáxia que pode ser que alguns palavrões povoem este texto, mas faz parte do universo da obra, ok? Não se ofendam!

Falo da obra Warriors – Os Selvagens da Noite, de Sol Yurick, doravante chamada de The Warriors, que é o título original e inaugura mais uma temporada da Maratona Darkside, a caveirinha mais sexy do mundo editorial brasileiro… kkkk! Mas essa temporada poderá ser um pouco mais curta, pois tive uma ressaquinha literária básica, ok? Prometo que vou me esforçar…

Sinopse da Editora:

Eles são mais perigosos que o sistema, mais violentos que o Estado e muito mais numerosos que a polícia. Membros de todas as gangues de Nova York se reúnem no Bronx para acabar com suas rivalidades e, juntos, lutarem contra “O Homem”. Tenha muito cuidado ao voltar de madrugada para casa.

THE WARRIORS é o romance que deu origem ao filme Os Selvagens da Noite, um verdadeiro clássico sobre a violência das gangues e a implacável justiça das ruas. Ainda mais cruel que no cinema, e com certeza muito mais realista, o livro THE WARRIORS foi originalmente escrito em 1965, e até hoje permanecia inédito no Brasil. A DarkSide Books tem o orgulho, sem falar na coragem, de finalmente lançar no país esta obra- prima da literatura marginal. Uma aventura frenética e perturbadora, capaz de brigar de igual pra igual com Laranja Mecânica, de Anthony Burges, numa luta de facas literária.

Leia mais clicando nas caveirinhas: 💀💀💀💀💀

De início vale deixar claro que esta é uma obra de 1965, meados de uma década marcada não só por avanços tecnológicos importantes (decorrentes da corrida espacial), mas também por uma guinada nos movimentos por direitos civis. Um dos mais célebres momentos desses movimentos é o discurso I have a dream, de Martin Luther King, líder negro norte-americano que é considerado um dos maiores momentos históricos do mundo contemporâneo. Vale muito a pena ler ou ver esse discurso! É só dar uma googlada!

IMG_0100.JPGNesta mesma década, em 1963, pouco antes da publicação desta obra, o presidente democrata John F. Kennedy fora assassinado e, em 1964, a lei dos direitos civis é assinada proibindo a segregação racial, ano em que Luther King recebe o Nobel da Paz. Paradoxalmente, a guerra do Vietnã estava a pleno vapor, ou seja, se algo estava em falta, era paz.

Essa contextualização é importante porque ela explica o plano de fundo da história do livro. Sem conhecer um pouco desses aspectos, a obra parece estar incompleta, ou sem uma justificativa, por assim dizer.

Explico: uma pessoa me perguntou no Instagram se eu havia gostado do livro, já que coincidiu de lermos a obra praticamente ao mesmo tempo. E eu respondi que pelo ponto de vista social talvez, mas pelo ponto de vista do enredo, não. Pois bem, vamos converter o talvez em sim e o não fica como está, combinado? Vamos à “resenha”.

Apesar de ser um livro da Darkside, não é uma história de terror. Mas sim de violência. Os seres que aterrorizam a Nova Iorque da década de 60 são bem mundanos, bem vivos, bem de carne e osso!

O livro trata de um grupo de pré-adolescentes latinos e negros que formam uma gangue chamada Dominadores de Coney Island. A gangue nova iorquina formada por grupos de marginalizados, resolve participar de uma grande reunião na qual o líder de uma delas iria propor a unificação dos grupos sob o pretexto de se tornarem maiores que o número de policiais, mais forte que o Estado, aquela coisa toda dos ideais adolescentes de querer mudar o mundo, só que, neste caso, pela contramão. Mas algo acontece e em vez de pacificação uma enorme baderna acontece: a rivalidade é engatilhada, a guerra toma lugar e uma grande briga toma conta do movimento “pacificador” e que leva a cabo a vida de alguém importante.

Tudo isso acontece numa data muito significativa para os americanos: a noite de 4 para 5 de julho, o Independence Day!

Captura de Tela 2016-11-19 às 22.39.15.pngSó resta então aos Dominadores fugir. E é nessa fuga que podemos perceber a dinâmica da relação entre os membros do grupo e a como a gangue interage com o mundo ao seu redor.

(Um adendo: não estou fazendo nenhuma apologia a qualquer ideologia de gênero. Só para registrar, pois o intento aqui não é migrar do entretenimento para debates político-ideológicos acalorados. Longe disso. Mas um pouco de “pensar” não faz mal.)

Sobre esse aspecto, é interessante a reprodução de um sistema patriarcal, baseado na hierarquia, em que a gangue é organizada. O líder é chamado de Pai (assim mesmo, no maiúsculo), e depois vem os filhos, os tios, os sobrinhos… Internamente, a gangue é chamada de Família.

No decorrer da história isso se explica, pois ao descrever a vida de alguns dos personagens, percebe-se que a único grupo em que eles encontram estabilidade é a gangue. Suas famílias mesmo, compostas por seus parentes sanguíneos, são totalmente desestruturadas e, por isso, eles não possuem com elas um grau de pertencimento. Os outros membros daquela sociedade externa à gangue são chamados de “Os Outros”. Ou seja, não há qualquer sentimento de identidade com o restante dos habitantes da Nova Iorque retratada por Yurick.

Captura de Tela 2016-11-19 às 22.40.24.pngA necessidade de auto-afirmação, típica da idade em que se encontram, é retratada de forma nua e crua, muitas vezes até exagerada, e ela é a força que move a violência. O poder do macho, o dever se mostrarem homens, mesmo que para isso seja necessário matar, estuprar, maltratar mulheres e homossexuais. A marginalidade não justifica a delinquência, mas não é assim que eles pensam.

A sinopse da editora compara esta obra a Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, que trata do mesmo tema, é contemporânea a The Warriors, mas tenho que dizer que aquela obra tem um universo muito mais rico, muito mais bem construído que esta.

Ambas lidam com a violência gratuita, mas Burgess criou um sistema mais complexo, um Estado mais inteligente que o de Yurick. Laranja Mecânica cativa, prende a atenção do leitor. The Warriors em muitas passagens chega a ser chato, como quando os integrantes da gangue resolvem competir entre si para ver quem é mais macho, medindo o tamanho do cacete ou vendo quem mija mais longe, para ver quem tem a piroca mais poderosa e, por consequência, o mais “homem” do grupo. É sofrível, 10-necessário. Ou quando o autor faz passagens extremamente descritivas, como a da partilha da porra do chocolate.

Captura de Tela 2016-11-19 às 22.39.41.pngOs dois autores criaram uma linguagem própria de seus personagens, mas Burgess foi além e criou um dialeto próprio para o grupo de Alex, o que deixa o livro muito mais horrorshow interessante. As vítimas de violência de Laranja mecânica também são muito mais interessantes que as de Warriors.

Além disso, o autor, em The Warriors, alterna momentos em que os personagens tem atitudes adultas (como quando tomam decisões importantes, embora controversas sob o prisma moral e até mesmo criminal) com aqueles em que eles são meras crianças/adolescentes em busca de um referencial para a vida, de segurança ou de fuga de seus medos infantis. Em Laranja Mecânica essa amenização pela inocência não ocorre e, mesmo assim, o leitor se envolve e se emociona mais com Alex que com os Dominadores.

Em ambas obras as mulheres são retratadas como bucetas ou como um troféu a ser exibido ou como um pacote de doces. Mais nada. E em The Warriors as bichas também são marginais, mas de uma classe inferior aos delinquentes da gangue. Eles podem até trepar com os viados, mas apenas com aqueles que não conseguem resistir a uma agressão ou tentativa de assassinato.

(Como eu disse alhures, utilizei termos que eu mesmo não curto, mas que fazem parte da linguagem da obra. Peço ao leitor que não se ofenda, ok?)

Enfim, é uma obra que retrata a violência em um período histórico importante que, de certa forma, explica toda a sistemática, mas que é interessante só se observada considerando a temática secundária, pois o tema central do livro, a construção do enredo em si, não me proporcionou uma leitura totalmente interessante, arrebatadora como foi de Laranja Mecânica.

É um bom livro? Sem dúvidas! Mas não é o melhor que li em 2016. Longe disso.

Ah, já ia me esquecendo! A parte pré-textual traz reflexões interessantes para contextualizar o leitor, mas eu aconselho que sua leitura seja feita ao final, apesar de constar no início da edição. Além disso, deu origem a um filme que, ao que parece, não foi tão fiel assim ao livro, mas que teve um bom desempenho nas bilheterias e acabou virando um filme cult.

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Sobre a edição da Darkside, o mesmo de sempre: livro lindo, capa linda que faz referência ao colete de couro do filme, uma bela diagramação, ilustrações condizentes com o enredo, alguns erros de grafia (Para variar 🤔! Alô revisor, cadê você, meu filho?), capa dura, e só senti falta da fitinha de cetim, que já é marca registrada da editora da caveirinha. Um belíssimo trabalho que ajuda a deixar a estante ainda mais bonita.

Sobre o autor:

SOL YURICK tinha apenas quatro anos quando a crise da bolsa de Nova York levou os Estados Unidos, e boa parte do mundo, à chamada Grande Depressão. Ele serviu na Segunda Guerra Mundial e mais tarde trabalhou como assistente social. Para escrever seu romance de estreia, The Warriors, Yurick se inspirou no épico Anábase, de Xenofonte (Grécia, século III a.C.) , além de suas próprias experiências nos guetos mais pobres de Nova York.

img_0156Conselho do tio: Não passe esse livro na frente de outras obras só porque foi comparado com Laranja Mecânica. Se você já o tem, leia no tempo que achar oportuno. Se não o tem, é uma leitura que pode ser dispensável. Mas é a MINHA opinião. Pode ser que você goste.

Nota: Não vou mais dar notas aqui no blog. Mas se você faz questão de ver as estrelas, pode visitar meus perfis no Skoob ou no Goodreads. Depois não diga que a culpa é delas.

Adquirido em: foi presente, não lembro a data.

Lido: de 09/11 a 18/11/2016.

Formato: papel perfumado de tonner.

Plataforma: carpos, metacarpos e falanges envolvidos em músculos, tendões e pele.

Quanto paguei: foi presente.

Editora/Selo: Darkside.

Livros relacionados: Laranja Mecânica.

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Sobre adsonamt

Advogado, servidor público, leitor inveterado, decidi criar esse blog para curtir um período sabático escrevendo sobre o que gosto de fazer. Minhas paixões: livros, chás, gatos, comida boa, música, board games e seriados (não necessariamente nesta ordem, depende da vibe do momento).

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