[Maratona 💀] A Menina Submersa: memórias, de Caitlín R. Kiernan.[S02E04]

timthumb-phpSabe aquele livro que tem um ritmo frenético? Não é esse!

Sabe aquela história que tem um pááááá! a cada capítulo? Não é essa!

Sabe aquele livro que você nem pensa na possibilidade de abandonar? Não é esse!

Sabe aquele livro que você não quer que termine de tão bom que é, e quando acaba surge aquele sentimento de perda? Não é esse!

Sabe aquele livro que você termina de ler e pensa: WTF is that ( = diábéisso, para quem não foi educado em inglês, como Sasha)? É esse!

Vamos parar de palhaçada brincadeira e falar sério, se isso é possível aqui no glorioso GN!

Já havia lido antes que esta obra é deshtruydorah mesmo divisora de opiniões, ou os leitores a amam, ou a odeiam. Comecemos então pela sinopse da editora:

A Menina Submersa: Memórias é um verdadeiro conto de fadas, uma história de fantasmas habitada por sereias e licantropos. Mas antes de tudo uma grande história de amor construída como um quebra-cabeça pós-moderno, uma viagem através do labirinto de uma crescente doença mental. Um romance repleto de camadas, mitos e mistério, beleza e horror, em um fluxo de arquétipos que desafiam a primazia do “real” sobre o “verdadeiro” e resultam em uma das mais poderosas fantasias dark dos últimos anos. Considerado uma “obra-prima do terror” da nova geração, o romance é repleto de elementos de realismo mágico e foi indicado a mais de cinco prêmios de literatura fantástica, e vencedor do importante Bram Stoker Awards 2013.

Para ler o restante da sinopse clique aqui e aqui! (As sinopses da Darkside constumam ser muito compridas).

Há controvérsias quanto aos termos “obra prima”, “magnífica” e outros mais que são citados nas sinopses que citei e outras presentes nos sites das livrarias virtuais. Mas vou detalhar melhor esses aspectos quando estiver descrevendo minha experiência de leitura. Primeiro vamos fazer aqui aquele resuminho sem spoilers importantes, juro.

As primeiras palavras da autora no início do livro já dão a tônica do que o leitor vai encontrar. Eis o alerta:

Este livro é o que é, o que significa que ele pode não ser o livro que você espera que ele seja.

img_3479Kédizê… Leia e aprecie se for capaz.

Trata-se de um livro dentro de um livro. É a história que India Morgan Phelps, AKA Imp, escreveu sobre sua piração pessoal com assombrações, fantasmas, sereias, lobos, artrópodos, etc… Esses fantasmas não são aqueles que conhecemos que fazem:

Buuuuuuuuuuuuuuuuu!

São, na verdade, qualquer coisa, pois uma mente como a de Imp pode encarar como um monstro qualquer troço que a obceque: um quadro, uma música, uma pessoa ou um artista (o título do livro é uma alusão a um quadro homônimo que é citado na obra, de um pintor fictício).

O que apenas mostra as armadilhas fatais que construímos para nós mesmos quando criamos personalidades.

Imp, escritora e pintora (embora ela não admita essa última atividade), herdou de sua mãe e de sua avó problemas psiquiátricos (esquizofrenia, obsessão, personalidades…) e tenta lidar com isso levando uma vida comum, com um emprego razoável, que dá para sustentar seu padrão de vida e seu tratamento. No entanto, ela convive com o medo de que aconteça consigo o mesmo que aconteceu com suas parentas: pedir pra descer antes do ponto e com o baú em movimento. Isso mesmo, a mãe e a avó de Imp resolveram desembarcar dessa dimensão por conta própria.

Mas a parte triste das janelas é que a maioria delas abre para os dois lados. Elas permitem que você olhe para fora, mas também deixam que alguma outra coisa que acontece olhe para dentro.

img_3493Um belo dia, num passeio corriqueiro, Imp se depara com um monte de coisas espalhadas na rua e resolve futricar e levar um livro que estava no monte para casa. Só que surge a dona do bagulho todo e diz: “olhakikiridinha, quequecê tá mecheno nas minhacoizatudo?”. Era Abalyn, que acabara de terminar seu relacionamento e meio que foi despejada de casa. Então Imp responde: “Melbayn, achado não é roubado mermã! Mas como não sou obrigada, vou deixar teu livro aqui! Mas vem cá, contuntrem comigo, causdiquê a senhora tá fazeno questão dessas porcaria toda?”. Abalyn explica tudo com cara de cachorro que caiu da mudança. Imp, fica com dó e então responde: “Quenda tudo e vamos pra minha residência, você pode montar acampamento lá. Sossega a bacurinha que vou pegar o possante! Pérainda!”.

E assim começa a história de amor entre Imp e Abalyn, que é uma gamer transexual e ganha a vida fazendo resenhas para uma revista especializada.

Mas tudo estava indo bem até que Imp, num de seus passeios, ouve o canto da sereia e resolve conferir. Ela dá de cara com uma mulher nua, chamada Eva Canning, numa estrada próxima a um rio, e resolve acolhê-la. Chegando em casa, Abalyn pergunta “Que porra é essa, Imp? Você tem o hábito de achar as coisatudo na rua e trazer para casa? Devolve esse ebó!” Mas era tarde demais! Imp já estava “enfeitiçada”. A partir disso, tudo começa a acontecer. E eu paro por aqui.

Gente morta, idéias mortas e supostamente momentos mortos nunca estão mortos de verdade e eles moldam cada momento de nossas vidas.

menina-submersa

Minha experiência de leitura:

Não é uma leitura fácil. Narrada de maneira completamente insana, não linear, acaba confundindo e cansando o leitor. Imp não esgota um assunto antes de começar outro e depois, sem terminar o segundo, começa um terceiro, depois retoma um dos que ficou para trás… e assim vai. E ainda existem inserções no texto que deixam o leitor sem saber se quem está falando é Imp ou Caitlin R. Kiernan. Em outros momentos não há como identificar o que é real, o que é fantasia, o que é delírio, o que é alucinação… Muito confuso o babado todo.

O que mais tememos não é o conhecido. (…) Mas o desconhecido desliza através de nossos dedos, tão insubstancial quanto o nevoeiro.

Claro que isso foi um artifício para tentar fazer com que o leitor se aprofundasse numa mente perturbada, pois Imp é uma mulher doida do cu submersa em seu medo de que seus fantasmas e levem ao suicídio. Mas ela, por outro lado, tem que lutar contra seus problemas psiquiátricos, lutar pelo seu relacionamento e isso a deixa numa sinuca de bico. O ponto positivo Ã© que ela não teme e nem tem vergonha de sua história.

A História é escrava do reducionismo.

img_3478Imp não é uma narradora confiável, e ela mesma faz esse alerta ao dividir a realidade entre o que é verdadeiro e o que é factual. Nem sempre o verdadeiro é factual. Porém, ela praticamente escreve um tratado sobre isso e sobre outras coisas que poderiam ser explicadas apenas o suficiente para que o leitor entenda a referência. Essas partes “didáticas” da obra também cansam.

Demorei mais que o normal para terminar essa leitura, até pensei em abandonar, mas sou brasileiro e não desisto nunca, pois é uma trama arrastada, com capítulos longos e sem sobressaltos. A não ser pelo capítulo 7 que reserva um momento completamente indescritível. Assisti algumas resenhas e alguns leitores odiaram esse capítulo, mas eu digo que é o único ponto alto da obra. Quanto ao final, só digo uma coisa: 😒.

Não há razão para ficar fora de casa à noite, sob o céu noturno, seu eu não puder ver as estrelas.

Mas nem tudo são espinhos! Existem coisas legais na obra: as referências musicais (inclusive alguém fez um grande favor de colecionar as músicas numa lista do spotfy) e aos anos 80, remissões a contos de fadas, o capítulo 7 (quando a pira fica forte), a forma sublime, natural e tranquila como a transexualidade e o romance entre as duas foi tratado. É uma obra extremamente sinestésica e as sensações são descritas com tanta intensidade que o leitor quase se sente como as personagens. E uma curiosidade: a autora, Caitlín R. Kiernan é uma mulher transexual. Então acho que tem muito dela em Abalyn.

Quem, morrendo no mar, pode ser levado num carro fúnebre?

Sobre a edição da Darkside:

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Esse ponto já virou clichêzaço: capa dura, blá, blá, blá… Alto relevo, blá, blá, blá… Livro lindíssimo, blá, blá, blá… Corte cor-de-rosa, blá, blá, blá… Fitinha de cetim, blá, blá, blá… Errinhos de revisão, blá, blá, blá… E essa edição de colecionador (Limited Edition) ainda veio com um marcador de papel bem bonito e um encarte para colorir. Só achei a fonte pequenininha.

“Independentemente do que foi ou não foi, acabou”, datilografei, “e você escreveu para mim. Você sempre será assombrada, mas acabou. Obrigada. Pode ir agora.” Imp datilografou. Eu datilografei.

Sobre a autora:

Caitlín R. Kiernan (1964) é autora de livros de ficção científica e fantasia dark, e paleontóloga. Escreveu dez romances, dezenas de histórias em quadrinhos e mais de 200 contos e novelas. Entre seus trabalhos, destacam-se os romances Silk (1998), Threshold (2001), ambos vencedores do International Horror Guild Award, e The Red Tree (2009); a série em quadrinhos The Dreaming, spin-off de Sandman, de Neil Gaiman, com quem também escreveu a novelização de Beowulf (2007). A Menina Submersa: Memórias conquistou os Prêmios Bram Stoker e James Tiptree, Jr., este dedicado a obras de ficção científica ou de fantasia que expandem e exploram a compreensão de gênero.

Dica do tio: Não é um livro que se indique. Não é uma leitura para qualquer um. Esteja com o espírito preparado para talvez enfrentar uma tormenta. Pode ser que você goste! É um terror psicológico e não tem nada de conto de fadas. É diferente de tudo que já li até hoje, talvez seja o motivo do estranhamento.

Nota: Não vou mais dar notas aqui no blog. Mas se você faz questão de ver as estrelas, pode visitar meus perfis no Skoob ou no Goodreads. Depois não diga que a culpa é delas.

Adquirido em: 13/05/2016.

Lido:  de 12 a 23/09/2016.

Formato: o bom e velho papel com cheiro de tinta.

Plataforma: minhas mãos!

Quanto paguei: 29,58, na Amazon.

Editora/Selo: Darkside/Darklove.

Livros relacionados: 1Q84, Valis, Caixa de Pássaros, Onde Cantam os Pássaros, A Garota no Trem. 

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10 comentários em “[Maratona 💀] A Menina Submersa: memórias, de Caitlín R. Kiernan.[S02E04]

  1. Cara, um livro psicodélico… quero muito. Aliás, esses livros da Darkside resenhados por vcs: ou são mesmo bons como vcs falam, ou vcs ganham um por fora da editora para falar bem do livro. Hahahahaha.
    Acredito na primeira opção.
    Belo texto, parabéns.
    Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Kkkkk! Que nada! Não temos nenhuma parceria (ainda)! Todos os livros foram adquiridos por nós ou ganhamos de presente de amigos! Mas confesso que sou fã do trabalho da Darkside e da Aleph! Pode ficar tranquilo que nossas resenha são (quase) imparciais e, espero, divertidas!

      Um abraço do tio!

      Curtir

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