[Maratona 💀]Onde Cantam os Pássaros, de Evie Wyld. [S02E02]

timthumb-phpQueridos leitores,

Estamos diante de mais uma daquelas leituras que não sei definir exatamente qual o meu sentimento sobre ela. Daquelas que te fazem pensar sobre teorias, possibilidades e que demora um tempo para ser digerida e suprir ou não as lacunas deixadas pelo autor.

Assim como aconteceu em O Circo Mecânico Tresaulti e O Demonologista, esse livro, cheio de elementos sutis e mensagens subliminares, talvez mereça uma segunda leitura para uma melhor percepção de sua trama, que parece simples, mas não é.


Sinopse da editora (já aproveito e mostro a contracapa!). Para saber mais, clica aqui.

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Evie Wyld nos apresenta, em Onde Cantam os Pássaros, a trajetória de Jake Whyte, uma mulher calejada pela vida. Jake é uma mulher diferente do convencional: bruta, masculinizada, quase xucra, pouco sociável, que vive isolada numa ilhota da Inglaterra criando suas ovelhas em companhia de seu fiel escudeiro cachorro chamado Cão, único ser que ela parece confiar, e mesmo assim não lhe deu um nome que revelasse algum sentimento pelo bicho.

A vida de Jake é narrada em duas linhas temporais: os capítulos pares falam de seu passado, na Austrália e é narrado do mais recente para o mais antigo. E os capítulos ímpares apresentam o presente de Jake, cronologicamente. Cada linha envolve um mistério: as cicatrizes nas costas de Jake marcam seu passado enquanto que as mortes violentas de algumas ovelhas de sua propriedade marcam o seu presente.

No entanto, o maior trunfo da forma como a autora gerou a narrativa é a sensação de estar retirando camadas sobre camadas que escondem e justificam a maneira de ser de Jake. A medida que avançamos na leitura, algo surpreendente sobre Jake é revelado. Assim, o maior mistério do livro é a própria vida de Jake. Portanto, é preciso se apegar a ela e não às questões das ovelhas ou das cicatrizes (o que não aconteceu comigo).

O olho humano sente o movimento antes de todo o resto.

Como o livro é narrado em primeira pessoa, nos faz exercitar a empatia, ou seja, faz com que o leitor se coloque no lugar do personagem. E uma das minhas teorias sobre o final da linha do presente tem a ver com isso. Se eu tivesse experimentado tudo que Jake passou, não revelaria tudo sobre mim, por receio ou por conveniência (fica uma dica sobre o que eu penso sobre essa parte do livro e espero não ter provocado revelação demais, é apenas uma teoria).

Além do mais é um livro visceral, com linguagem sem censura (muitos palavrões, cenas de sexo), os sentidos são muito utilizados de maneira muito instintiva (cheiros, gostos e cores são muito marcantes), para dar mesmo uma certa irracionalidade à personagem principal.

O desenvolvimento do enredo é um pouco arrastado em certos pontos e um dos personagens, Lloyd, que aparece meio que do nada, mas tem um papel relativamente importante, é pouco explicado. A autora deixa muito aberto o fato de ele, assim como Jake, carregar um fardo do passado, mas isso não é desenvolvido. A autora poderia ter trabalhado melhor esse personagem. Seria ele um amigo imaginário? Ou o espelho de Jake? Um alter ego? Uma outra personalidade de Jake? Ou apenas um ser de carne e osso interessado em abrigo e comida no qual Jake se identificou? O que é real ou delírio ou alucinação? Vai depender da profundidade que o leitor conseguir atingir ao mergulhar na mente de Jake.

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O Cão tem um papel importante, pois muitas vezes parece ser  o bode expiatório de Jake. Fiquei com a impressão de que muito daquilo que ela não quer assumir (algo que ela gostara de fazer ou algo que ela fez mas não quer revelar) fica por conta do cachorro.

O final do livro, na linha sobre o passado, é brutal e tragicamente surpreendente. Eu realmente não esperava que acontecesse o que aconteceu. Mas na linha do presente, o desfecho é aberto, o que me fez pensar sobre muitas coisas.

Não foi um livro que eu amei. Mas também não foi um livro que eu não amei. Achei 🆗, a leitura agradável (fica mais fácil depois que você entende a questão das linhas temporais) e que me proporcionou alguma reflexão.

Não espere um livro de terror só por ser da 💀 Darkside. Acho que está mais para um drama psicológico, com alguns elementos de suspense. O lado negro do livro diz respeito às experiências de Jake, de como ela tem uma história triste, carregada de medo, culpa e perdas, de uma fuga do que ela se tornou por influência das circunstâncias que só são reveladas ao final.

Enfim, uma história da desconstrução de uma inocência castigada pela violência física e psicológica e seus danos, de uma busca solitária de estabilidade, da paz e do amor. E sobre como fatos do passado podem influenciar na personalidade, moldando o caráter e determinando as ações ao longo da vida.

“Não existe fuga. Não existe proteção. O passado sempre nos encontra, no meio ou no fim da nossa curta jornada“.

Aliás, falando em💀 Darkside, não tem como deixar de ser repetitivo e não falar sobre o belo trabalho editorial.

A obra está dentro do segmento ❤️ Darklove, que são livros escritos por mulheres e para ler sem medo, mas que trazem algum aspecto obscuro, mas não assustador, no desenrolar da história.

A capa cor de rosa e as folhas de borda preta já revelam que quem vê cara, não vê coração. O rosa vem do presente, remonta à forma de vida de Jake, que não é exatamente feliz por conta dos fantasmas do passado, mas com certeza mais tranquila que seu passado que se revela negro por conta de seus traumas. Ou seja, revela muito sobre Jake, uma carcaça que passa um certo ar de estabilidade, de um resquício de inocência, mas que é possível perceber que há uma história marcada pela vida, descoberta somente nas entranhas negras do livro.

Além disso, a capa é repleta de simbologia, pois traz elementos presentes na história: a cor rosa, os pássaros, os espinhos, a cobra, pedaços de cérebro, partes de um rosto feminino, uma caveira, flores em meio à erva-daninha, as formigas, uma silhueta branca de um pássaro… A folha de guarda traz um rebanho com duas ovelhas ausentes… Tudo tem ligação com a obra. É muito interessante esse trabalho de recriação da💀 Darkside, o que nos faz pensar que é uma obra exclusiva para os leitores brasileiros. Maaaas, eu ainda sonho com o dia em que não vou encontrar algum errinho de revisão em um livro da💀 Darkside. Fica o puxão de orelha de leve.

Sobre a autora:

EVIE WYLD é inglesa e, como sua personagem em Onde Cantam os Pássaros, viveu parte de sua vida na Austrália. É autora do premiado After the Fire, a Still Small Voice e integrou a edição da revista Granta com os melhores jovens escritores britânicos da década. Onde Cantam os Pássaros é o seu premiado segundo romance, o primeiro lançado no Brasil. Saiba mais em eviewyld.com. 

Bem, é isso kiridjinnhosh do tchio! Um beaj!

P.S.: Recomendo a leitura? Sempre!!! Não é porque eu não adorei que você vai odiar, percebe? As conclusões sobre uma leitura são muito pessoais, então se quer ler, vai em frente! Não quero ser injusto com a obra e depois mudar de ideia como aconteceu com O Circo Mecânica Tresaulti.

Dica do tio: tente se envolver com Jake!

Nota: não vou mais dar notas aqui no blog. Mas se você faz questão de ver as estrelas, pode visitar meus perfis no Skoob ou no Goodreads. Depois não diga que a culpa é delas.

Adquirido em: 12/05/2016.

Lido:  de 07 a 10/09/2016.

Formato: o bom e velho papel com cheiro de tinta.

Plataforma: minhas mãos!

Quanto paguei: 22,74, na Amazon.

Editora/Selo: Darkside.

Livros relacionados: O Circo Mecânico Tresaulti, A Garota no Trem, Caixa de Pássaros, 1Q84. 

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3 comentários em “[Maratona 💀]Onde Cantam os Pássaros, de Evie Wyld. [S02E02]

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