Valis e O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick.

philipdickVamos conversar sobre Philip K. Dick (PKD)?

Neste post vou falar um pouco sobre este autor que tem um jeito muito peculiar de criar suas obras. Talvez um pouco do contexto da vida de PKD explique o porquê de sua excentricidade.

PKD nasceu em 1928 e morreu em 1982, aos 53 anos. Isso quer dizer que ele viveu uma época de grandes mudanças no curso da humanidade. Todos sabem que na primeira metade do século XX o mundo vivia sob os efeitos de duas grandes guerras, o que me lembra um trecho da música Canção do Senhor da Guerra, da Legião Urbana que diz:

Uma guerra sempre avança a tecnologia, mesmo sendo guerra santa, quente morna ou fria. Pra que exportar comida, se as armas dão mais lucro na exportação?

Uma verdade! O que importa para nós é que este período mexeu com o imaginário de muita gente, e algumas destas pessoas se destacaram como grandes autores de distopias, de ficção científica e de romances, como o próprio PKD, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Aldous Huxley, George Orwell e Ray Bradbury. O mais contemporâneo dos “clássicos” a abordar temas decorrentes dessa época é Douglas Adams, mas esses aspectos não são tão presentes em sua obra quanto podemos perceber na criação dos outros autores.

Obviamente que além do lado macabro de uma guerra, há pontos positivos como: avanços e mudanças de paradigmas nos campos da ciência, da medicina, da tecnologia, da política, da economia, da filosofia e da espiritualidade e vemos isso muito presente nas obras desses autores que refletiram sobre essas transformações (corrida espacial, guerra fria, energia nuclear…), procurando responder, cada um ao seu jeito, questionamentos universais.

No entanto, PKD se diferencia dos demais por lidar com essas questões de uma maneira muito peculiar, e a primeira dica quanto a esse aspecto é de impacto visual: é o resultado do trabalho não do autor, mas da editora, no caso a Aleph, que fez uma boa escolha ao trocar a arte das capas dos livros do autor nas edições atuais. Não que as anteriores fossem ruins, mas as atuais, além de não entregarem parte do enredo, materializam um aspecto da forma de escrever de PKD.

PKD é o cara da distorção, e acho que ele adoraria ver as capas das edições brasileiras atuais caso ainda vivesse. Ele distorce os aspectos da vida humana de uma maneira que os fatos sejam mais importantes que os personagens.

Vi muita gente reclamando de que o Homem do Castelo Alto não há um desfecho. Mas há! Neste livro ele distorce a realidade sob o ponto de vista da política. O personagem principal desta obra não é Juliana, nem Tagomi, nem Frank Fink, nem Childan e nem Mr. Baynes, mas sim o mundo possível, porém irreal, em que a Guerra teria sido vencida pelo Eixo (Alemanha, Japão e Itália). E é nesse cenário que PKD leva o leitor a acreditar nos fatos, se apegar àquela realidade (e não aos personagens) e, quando ele menos espera, mais ao fim do livro, começa a desenhar a reviravolta. Ele construiu o clímax sutilmente como um felino, preparou o terreno, deu a dica e quando o leitor menos espera, vem o salto. É o ponto que você pensa “meu Deus, o que aconteceu?” e volta para reler o último capítulo e percebe que o cara era realmente um gênio.

O Homem do Castelo Alto foi o segundo livro do autor que li. E precisei disso para entender a sua lógica. Compreendi que a intenção dele é incomodar, fazer o leitor ficar pensando por dias a fio sobre aquele final, sobre os pontos que poderiam causar polêmica em um bate-papo sobre o assunto, até digerir completamente aquela leitura.

Isso aconteceu quando li VALIS, que foi o primeiro livro do autor que li. Definitivamente não é o livro mais indicado para se iniciar em PKD, por isso demorei a falar sobre ele aqui no GN.

Em VALIS, PDK distorce a realidade sob os apectos psicológico e religioso, ao contar a história de um cara que tem transtorno dissociativo de identidade e que consegue ser obsessivo compulsivo independentemente da personalidade que ele assuma (seja a de Horselove Fat ou de Phill). E essa obsessão consiste na busca de uma religiosidade que também é distorcida! Que dizer, é um caleidoscópio sem lógica, mas como se houvesse uma lógica desorganizada (não sei explicar)… Apesar de toda a loucura com a qual o leitor se depara, a questão da fé também é resolvida (e digamos que a da dupla personalidade também).

Eu vou me abster de revelar maiores detalhes sobre os livros (personagens, enredo, resumo, resenha) porque a intenção aqui é justamente despertar uma curiosidade sobre o autor, cujos personagens principais de seus livros não são as pessoas, mas sim grandes interrogações iniciadas por um “E se…?”. Em todo caso, vou inserir a sinopse da editora para quem quiser levar em consideração na hora que for decidir ler PKD (ou não, alternativa que nem considero).

Em VALIS a interrogação é “E se tivéssemos mais de uma personalidade, como lidaríamos com a fé?” E em O Homem do Castelo Alto, a pergunta é “E se acreditássemos viver em uma realidade diferente da nossa, como nos comportaríamos?”. Os personagens humanos são apenas instrumentos para que o autor chegue às suas conclusões sobre os fatos, uma distorção da maneira como a maioria dos escritores escreve, pois privilegiam os conflitos das pessoas, ou seja, PKD subverte a regra e domina a exceção com maestria, expondo o avesso do avesso do avesso do avesso (este post está cheio de referências musicais!). Como podemos ver, PKD era realmente o mestre da distorção. Vale muito a pena a leitura. Com certeza vou querer ler todos os outros livros desse autor genial.

Valis:

A vida de Horselover Fat sempre foi repleta de paranoia e episódios depressivos. Apesar de tentar ajudar os amigos, nunca obteve muito sucesso. Presa de sentimentos confusos e pensamentos intrincados, ele ocasionalmente flertava com a ideia do suicídio. Mas tudo muda quando Fat (ou Phil, a distinção nem sempre é clara) é atingido por um intenso feixe de luz rosa. A partir de então, dá início a uma verdadeira jornada pessoal para entender o que aconteceu: se foi um momento de loucura ou se, de fato, uma entidade divina se revelou para mostrar-lhe a verdadeira natureza do mundo. Transitando entre a mística religiosa, o gnosticismo e a tecnologia extraterrestre, Fat sai em busca de um messias reencarnado que já teria passado pela Terra e acaba percebendo que as fronteiras da realidade começam a ficar cada vez mais difusas. Um dos últimos livros escritos por Philip K. Dick, Valis espelha o conjunto de experiências e ideais teológicos do autor. Sua narrativa quase autobiográfica, repleta de digressões filosóficas e religiosas, é leitura absolutamente essencial para compreender a visão de mundo de um dos mais geniais escritores de ficção do século 20. Extra: Esta edição, exclusiva no mundo, inclui o quadrinho “A Experiência Religiosa de Philip K. Dick”, criado em 1986 por Robert Crumb. Nele, o cultuado e controverso artista gráfico narra a experiência mística vivida por Dick que deu origem a Valis.

O Homem do Castelo Alto:

Neste livro que é considerado por muito o melhor trabalho do autor, Dick apresenta um cenário sombrio: a Segunda Guerra Mundial foi vencida pelos Nazistas. O mundo vive sob o domínio da Alemanha e do Japão. Os negros são escravos. Os judeus se escondem sob identidades falsas para não serem completamente exterminados. É nesse contexto que se desenvolvem os dramas de vários personagens. Ao apresentar uma versão alternativa da história, Dick levanta a grande questão: “O que é a realidade, afinal?”

Por fim vale a pena destacar que sua obra serviu de influência e inspiração para várias obras cinematográficas e televisivas. Recentemente a Amazon (quem entende bem inglês e tem cartão de crédito internacional pode ver direto da fonte) lançou uma série homônima baseada em O Homem do Castelo Alto (o que me fez passar o livro na frente dos outros e agora estou esperando o @Etio_Junior terminar a leitura para vermos o seriado). Androides sonham com ovelhas elétricas? deu origem a Blade Runner. Realidades Adaptadas reúne contos do autor que inspiraram: O Vingador do Futuro, Screamers, Impostor, Minority Report, O Pagamento, O Vidente e Os Agentes do Destino. E VALIS foi uma das inspirações para o seriado Lost, tendo inclusive aparecido em um dos episódios.

Dica do tio: entenda que PKD não segue a lógica usual de escrita para apreciar sua obra de maneira mais completa. E “Hey, coisinha, vai devagar!”. Presta atenção nas mensagens subliminares.

Nota: não vou mais dar notas aqui no blog. Eu adorei os livros e recomendo muito a leitura. Mas se você faz questão de ver as estrelas, pode visitar meus perfis no Skoob ou no Goodreads. Depois não diga que a culpa é delas.

Adquirido em: 12/01/2015 (VALIS) e 16/03/2016 (O Homem do Castelo Alto).

Lido: Dezembro/2015 (VALIS) e 08 a 12/08/2016 (O Homem do Castelo Alto).

Formato: impresso (VALIS) e e-book (O Homem do Castelo Alto).

Plataforma: o bom e velho papel, com cheiro de livro novo e o meu xodozinho, coisinha mais buzunzunguinha do tio, o Kindle.

Quanto paguei: VALIS foi presente e O Homem do Castelo Alto custou R$2,88, na Amazon (isso mesmo que vc leu!).

Editora/Selo: Aleph.

Livros relacionados: ficaria aqui até o próximo século enumerando obras relacionadas a essas pelos motivos elencados no texto, por isso vou dizer apenas isso: leia Huxley, Bradbury, Orwell e Asimov.

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6 comentários em “Valis e O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick.

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