S., de J. J. Abrams e Doug Dorst.

91S666dWkaLOlá pessoal! Hoje vamos falar de mistérios. E algumas frustrações…

Como prometido no post anterior, terminei de ler S./O Navio de Teseu e estou aqui para falar um pouco sobre ele.

Pensei muito antes de escrever algo sobre este livro com medo de não ser justo com a obra e com minha experiência de leitura, e nem desqualificar todo o trabalho que envolve a edição de um livro, desde a sua concepção até o momento em que ele chega na prateleira da minha estante.

Mas enfim… minha reação ao terminar de ler toda a obra você pode ver a seguir.

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Explico.

IMG_3263Primeiro vamos à proposta dos autores, que é muito interessante. Trata-se de um livro-jogo, em que a hipertextualidade é bastante explorada. Mas tio, WTF is (para quem não foi alfabetizado em inglês, “WTF is” significa “DIÁBÉISSO?”) hpersexstuslablablabladiadade? É uma forma de criação, seja audiovisual ou escrita, que extrapola os limites da própria obra, incluindo, por exemplo, referências explícitas ou implícitas. No caso dos livros, são recursos que levam o leitor a procurar informações em outras fontes. Neste ponto a obra é muito rica, pois faz referências a mitologia, psicologia, história, antropologia…  Além do que inclui mensagens cifradas a serem descobertas pelo leitor por meio de pistas no texto e documentos que vêm junto com o livro (que tornam o livro um pouco difícil de manusear, o que se supera com um simples elástico).

IMG_3259Essa proposta é bem o estilo de J. J. Abrams, que ajudou a criar e nos enlouquecer com manter o seriado LOST em nossas mentes durante um bom tempo. Creio que o seriado seja o seu trabalho mais conhecido. J. J. Abrams adora um mistério, uma caixa misteriosa, uma escotilha, lugares claustrofóbicos… Ele explica porque neste vídeo, disponível no TED. E o livro em questão tem isso: o que você vê primeiro é uma caixa misteriosa que contém um livro dentro, intitulado “O navio de Teseu”, que é o romance principal. Já escrevi um pouco sobre o romance principal no post anterior. S. é o livro de Jen e Eric e O Navio de Teseu é o livro de V. M. Straka.

IMG_3265Sobre o projeto gráfico da Editora Intrínseca não há o que dizer. Bonito é pouco! É de um primor! De um cuidado excepcional! É um dos livro mais bonitos da estante. Só faltou o fitilho de cetim para marcar páginas. Sei que deu um trabalho danando para que esse livro fosse publicado aqui no Brasil, tanto é que ele é impresso na China, pois não foi possível fazê-lo com a mesma qualidade no Brasil. Ao menos é o que diz em alguns vídeos no canal e no site oficiais da Editora e no hotsite do livro. O que eu mais achei legal foi a entrevista com o calígrafo que desenhou os diálogos das margens das páginas.

Sobre o enredo.

“O Navio de Teseu” (ONDT) é um livro escrito por V. M. Straka (um autor fictício e misterioso), que é o romance principal da obra. ONDT narra a história de S., um homem misterioso, que não se lembra de quem é, que enfrenta muitos percalços para recuperar suas memórias e encontrar um amor. É um homem em busca de si mesmo e de suas realizações pessoais, que durante  história encontra seu crush, a Sola. A história se passa em tempo e lugar desconhecidos.

IMG_3266Ele é capturado numa situação muito inusitada e desagradável e vai parar em um navio onde o tempo parece passar de um jeito diferente que em terra firme. S. quer se encontrar (recuperar sua memória) e se realizar no amor. Em um dado momento é possível questionar se é mais importante a busca do passado ou a construção de um novo “eu” para viver um futuro em paz. É dificíl distinguir o que é delírio ou alucinação na mente de S. pois as percepções dos personagens são carregadas de mensagens cifradas e metafóricas. E o navio, do qual S. escapa, mas acaba retornando outras vezes, se confunde com a jornada da vida, incluindo os medos e sentimentos de S. É dificil saber, em vários momentos se o narrador descreve o navio ou se é S. navegando pelo mar obscuro de sua mente em busca de uma constante transformação.

É um texto repleto de simbologia, metáforas, linguagem figurada, que fazem com que as histórias de S. se confunda com a de Straka e que o navio seja uma alegoria de sua própria vida. É preciso estar bem atento para interpretar as intenções de “Straka”.

IMG_3258Nas margens, “Eric”, um “acadêmico” da universidade que estuda este autor, consegue o livro e faz anotações nas bordas das páginas, procurando desvendar os segredos de Straka e o esconde na biblioteca. Só que ele não contava que o livro seria encontrado por Jen, uma estudante de letras, que também se interessa por Straka e começa a trocar ideias com Eric escrevendo também nas margens do livro. Eles discutem questões relacionadas às suas pesquisas e também assuntos pessoais relacionados aos conflitos profissionais, estudantis, familiares; confidenciam segredos (verdades e mentiras) um ao outro e acabam se apaixonando.

A leitura é trabalhosa, pois precisa ser feita em várias fases. Comecei a ler na ordem: lia o texto do romance original de cada página e as anotações das bordas. Li dois capítulos assim e desisti. Então procurei vídeos e blogs para saber como as pessoas que leram o livro o fizeram. Até que encontrei alguns “tutoriais” que recomendaram e assim procedi:

  1. A leitura do romance principal e notas de rodapé, sem parar para ler as anotações.
  2. Depois a releitura do prólogo, das anotações a lápis e a tinta azul e preta, das notas de rodapé e dos anexos referenciados.
  3. Então vem a fase da leitura das anotações em verde e laranja e dos anexos que são referenciados.
  4. Por fim, as anotações em vermelho e roxo e em preto e preto (quem tem o livo vai sacar) e dos anexos referenciados.

Quero dizer com isso que a leitura demanda tempo e paciência. E é por isso que vou fazer uma “Dica do Tio” bem comprida desta vez…

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Dica do Tio

Se você gosta de livros curtos ou histórias que, ainda que possuam um grau de complexidade, fluam de forma mais linear e explícita, desista. Como eu disse, o livro é repleto de mensagens subliminares, metáforas e linguagem ambígua.

Se você não se importa com livros longos, saiba que este livro inclui um jogo, com mensagens cifradas, que exigem pesquisa na internet, conversas com outras pessoas que leram, busca de referenciais históricos… Ou seja, exige do leitor uma capacidade investigativa. Se você, como eu, não tem muita paciência com isso, desista. Digo isso porque Abrams e Dorst deixaram a cargo do leitor a conclusão de muitas pontas soltas, inclusive algumas que fazem parte do mistério principal do livro. (Ou fui eu que não entendi bem…). Muita coisa não é explicada nem na obra principal e nem por Eric e Jen e isso me deixou bastante frustrado. Queria que a obra se resolvesse por si mesma e esta expectativa não foi alcançada.

Se você tem espírito investigativo e gosta de ficar muito tempo dedicado a um mesmo assunto, esse é o livro perfeito para você.

Sobre minha experiência de leitura.

IMG_3260Foi até agradável, mas foi frustrante não ter resolvido todas as pontas soltas da história. Mas tem algumas possibilidades de estratégias que utilizei para não dizer que não recomendo o livro. Uma delas é fazer um paralelo entre o romance principal e o romance paralelo que acontece nas margens, relevando a questão da identidade de Straka. Isso é bem legal. Outra estratégia é enxergar as coisas de forma separada: a história de S. desvinculada da história de Jen e Eric.

Agora, a estratégia de entender todo o conjunto da obra, com a leitura que fiz, é impossível. Digo isso apesar de me considerar um cara curioso até demais. Mas eu não tive paciência de ficar pesquisando em fóruns na Internet coisas que outras pessoas disseram, fizeram e desvendaram quando leram o livro. Preferi guardar meus sentimentos sobre isso só para mim, apesar de estar revelando um pouco disso a vocês que acompanham este glorioso blog.

É difícil quando um livro possui muita abertura interpretativa e o leitor talvez não tenha todos os recursos para entendê-lo, ou simplesmente esses recursos não existem. Situação diferente aconteceu quando li O Demonologista, que possui um final aberto a interpretações, mas que pode ser suprido com base em suas próprias crenças, na fé, ou numa experiência tangível. Eu não senti isso lendo S., pois ele só funcionou para mim, nesse aspecto, até certo ponto.

Nota: não vou mais dar notas aqui no blog. Mas se você faz questão de ver as estrelas, pode visitar meus perfis no Skoob ou no Goodreads. Depois não diga que a culpa é delas.

Adquirido em: 12/06/2016.

Lido de 19/07 a 03/08/2016.

Formato: impresso.

Plataforma: o bom e velho papel, com cheiro de livro novo.

Quanto paguei: foi presente! Mas se você se interessou, passa na Amazon!

Editora/Selo: Intrínseca.

Livros relacionados: S. é diferente de tudo que já li. Mais fácil relacioná-lo com algum seriado, como Lost e outros do gênero.

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Sobre adsonamt

Advogado, servidor público, leitor inveterado, decidi criar esse blog para curtir um período sabático escrevendo sobre o que gosto de fazer. Minhas paixões: livros, chás, gatos, comida boa, música, board games e seriados (não necessariamente nesta ordem, depende da vibe do momento).

9 pensamentos sobre “S., de J. J. Abrams e Doug Dorst.

  1. Esses dias vi uma promoção e acabei comprando esse livro por pura curiosidades pela experiência de leitura, mesmo que com expectativas baixas em relação ao mistério. Sou apaixonada por livros de suspense e sei que eles não precisam de tantos recursos para ser fantásticos, o que me chamou atenção foi esse jogo mesmo.

    Mas confesso que é esse mesmo jogo que tem me feito adiar a leitura dele, já que paciência e tempo andam meio escassos por aqui. Sua resenha só confirmou minhas suspeitas, hahaaha!

    Mas como já tá na estante, vou esperar por férias ou algo do tipo para dar uma chance ao livro 😛

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  2. É mesmo necessário muito tempo para a leotura, mas eu amo mistérios e jogos, então não posso reclamar de nada da obra. Adorei o post! Felizmente, consegui resolver e decifrar a maioria dos desafios, mas ainda estou acabando a leitura. O que mais gostei é que, mesmo depois do término, podemos acompanhar sempre a história se desenrolando e trazendo mais aventuras, por meio dos websites (twitter, blogs, etc). Tenho a leve impressão de que ainda vou longe com S. Novamente, adorei o texto e agradeço por ele, porque também estou escrevendo minhas considerações e é muito difícil hahaha abraços!

    Curtido por 1 pessoa

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