1984, de George Orwell.

Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado.

imagem.aspxAh, queridos colegas nerds! O tio aqui não consegue se livrar das distopias. Elas me dominam, me aprisionam e me torturam, mas eu as amo! E a leitura que dessa vez merece uma resenha aqui no glorioso GN é 1984, de George Orwell.

Já aviso logo que partes do enredo, e não detalhes, serão reveladas nesta resenha, mas eu creio que a leitura da obra é algo muito superior a qualquer coisa que esteja escrita aqui ou que qualquer outra pessoa fale, ou escreva, ou revele no YouTube. Neste tipo de obra os detalhes são importantíssimos, pois revelam por meio das sutilezas muitos aspectos fundamentais. Então, se quiser parar por aqui e ler o livro, faça assim! MAS NÃO DEIXA DE LER O LIVRO! Se quiser continuar lendo essa singela resenha, fique a vontade, ela não vai retirar o prazer de sua leitura.

SINOPSE: Winston, herói de 1984, último romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico. De fato, a ideologia do Partido dominante em Oceânia não visa nada de coisa alguma para ninguém, no presente ou no futuro. O’Brien, hierarca do Partido, é quem explica a Winston que “só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro”. Algumas das ideias centrais do livro dão muito o que pensar até hoje, como a contraditória Novafala imposta pelo Partido para renomear as coisas, as instituições e o próprio mundo, manipulando ao infinito a realidade. Afinal, quem não conhece hoje em dia “ministérios da defesa” dedicados a promover ataques bélicos a outros países, da mesma forma que, no livro de Orwell, o “Ministério do Amor” é o local onde Winston será submetido às mais bárbaras torturas nas mãos de seu suposto amigo O’Brien. Muitos leram 1984 como uma crítica devastadora aos belicosos totalitarismos nazifascistas da Europa, de cujos terríveis crimes o mundo ainda tentava se recuperar quando o livro veio a lume. Nos Estados Unidos, foi visto como uma fantasia de horror quase cômico voltada contra o comunismo da hoje extinta União Soviética, então sob o comando de Stálin e seu Partido único e inquestionável. No entanto, superando todas as conjunturas históricas – e até mesmo a data futurista do título -, a obra magistral de George Orwell ainda se impõe como uma poderosa reflexão ficcional sobre os excessos delirantes, mas perfeitamente possíveis, de qualquer forma de poder incontestado, seja onde for.

George Orwell é o pseudônimo de Eric Arthur Blair, romancista, ensaísta político e jornalista nascido em 1903 ma Índia Britânica. Entre idas e vindas da Índia para a Inglaterra, já que trabalhava como Policial Imperial da então colônia, resolveu voltar definitivamente para a sede do reino para realizar seu sonho de ser escritor, contrariando as expectativas de seu pai. Faleceu em 1950, com apenas 46 anos, vítima de tuberculose, pouco tempo depois de publicar seu último e mais aclamado livro, que é esse do qual estamos falando!

Apesar de ter sido um defensor do socialismo democrático, se é que isso é possível, apresentou ferrenha oposição aos regimes totalitaristas, como o soviético, por exemplo.

1984, lançado em 1949, reflete essa oposição ao totalitarismo. O enredo se passa num futuro distópico no qual nada passa despercebido pelo Partido Ingsoc, que tem total conhecimento e controle sobre as ações e pensamentos das pessoas. O cenário é a Inglaterra, que fica no território fictício de Oceânia, que está em guerra constante e inútil com a Eurásia e a Lestásia. Essa guerra serve para justificar a escassez de alimentos e o uso do excedente do que chamamos de PIB hoje.

Estão presentes nessa realidade a manipulação da história, a propaganda do governo (mídia) e a manipulação da memória das pessoas por meio do discurso, técnicas psicológicas, e inclusive da linguagem, por meio da implantação de um idioma artificial, chamado novafala. Todas essas técnicas destinadas a evitar que a população pense sobre a realidade e se destinam a alimentar um projeto de poder. É o poder pelo poder, sem propósito maior ou mais nobre do que o domínio do Estado e suas benesses por uma minoria. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Basta ligar a TV no “House of Cards Banânia”.

As famílias serviam apenas para reproduzir indivíduos apoiadores do Partido. As crianças já nasciam imersas em uma espécie de condicionamento, implícito na rotina do dia-a-dia, de apoio às regras do regime e eram capazes até de denunciarem os próprios pais para o governo, formado por três ministérios: o da Verdade, responsável pelas notícias, entretenimento, educação e belas-artes, mas que na realidade cria mentiras para manipular passado, presente e futuro e jogar com a memória das pessoas; o da Paz, responsável pela guerra; o do Amor, que cuida da manutenção da lei e a ordem, sem medir esforços quanto aos meios para isso (tortura e “vaporização” de pessoas); e o da Pujança, que responde pela economia (da escassez de alimentos).

A população vivia em plena escassez de recursos e alimentos, porém os membros o Partido continuavam tendo acesso a tudo de bom e melhor. Sim, aqui a sociedade também é estratificada, dividida em: Partido Interno (mais privilegiados), o Partido Externo (funcionários secundários) e a prole (que era a casta mais desprivilegiada, numerosa e inofensiva). A individualidade era desestimulada, pois todos os esforços das pessoas devem ser direcionados para os interesses do Partido, ops!, da coletividade. Quem diverge é reprimido pela coletividade e pela Polícia do Pensamento.

Mais uma obra atemporal, que diz muito sobre o que estamos vivendo hoje, pois é possível identificar elementos que podem ou estão presentes em vários países que conhecemos. Mas a identificação mais impressionante e que mais se aproxima de uma ditadura atual, é a Coréia do Norte contemporânea. Tem uma parte do livro que o leitor realiza tudo aquilo que sabemos sobre o “camarada” King Jong-un. O discurso do ódio fazia com que as pessoas esquecessem de si para idolatrarem o Grande Irmão (personificação do Partido), algo muito parecido com que regimes ditatoriais e partidos políticos fazem hoje em dia para doutrinar a população ou os militantes, uma verdadeira lavagem cerebral.

Na realidade de 1984 quem saísse da linha, ainda que por ter ideias que poderiam prejudicar o sistema, cometia crime de pensamento, que poderia ser uma acusação sobre qualquer coisa, fosse ou não verdade, pois o sistema de vigilância e controle é difuso e funciona por meio de teletelas espalhadas por todos os lugares, exceto onde vive a prole, que são os olhos e os ouvidos do Grande Irmão. Para isso havia o duplipensar, que era uma forma de pensamento incutida na população por “adestramento” pela qual seria possível conciliar ideias opostas, acreditando em ambas, como “guerra é paz; liberdade é escravidão e ignorância é força”.

Os personagens principais são Winston Smith e Júlia, ambos funcionários do Ministério da Verdade, que vivem um romance em meio a todo esse caos social de 1984 e divergem do sistema e vivem uma história muito maluca, que eu não vou falar sobre para não revelar ainda mais sobre o livro.

A obra é repleta de metáforas, teorias sobre guerra, de digressões nas emoções do personagem e uma parte meio chatinha na qual o autor teve a intenção de ser mais didático, que só por isso não ganhou uma nota igual a de Admirável Mundo Novo.

É impossível não comparar 1984 com Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, mas aqui há uma desesperança no futuro, o que não ocorre na obra de Huxley, onde as pessoas estão plenamente felizes e esperançosas, ainda que artificialmente. Mas ambas as obras causam muito incômodo, pois causa ao leitor muitos sentimentos: de impotência, de dúvida, de receio, de pena, de medo, de desespero e de perda de fôlego, pois passa a impressão de que muitas coisas que acontecem na narrativa se realizaram ou estão muito próximo de se realizar em nosso tempo.

O livro foi adaptado duas vezes pro cinema, uma em 1956 e outra em 1984, e é engraçado comparar como o futuro idealizado por Orwell foi retratado na telona.

Enfim, mais uma SUPER incrível SUPER obra SUPER clássica que SUPER vale a pena ler para SUPER explodir teu cérebro e ainda assim ser uma SUPER experiência na vida de qualquer leitor.

Dica do tio: leia os três posfácios, pois como foram escritos em épocas bem diferentes, trazem interpretações bem diferentes sobre a obra.

Nota: 4,5/5,0 (é crime de pensamento cogitar não ler esse livro)

Adquirido em: 25/12/2015.

Lido de 01/06 a 07/06/2016.

Formato: e-book.

Plataforma: meu companheiro Kindle.

Quanto paguei: R$9,90, na Amazon.

Editora: Companhia das Letras.

Livros relacionados: as distopias Fahrenheit 451, O Jogador Nº 1, Admirável Mundo Novo, Laranja Mecânica; a fábula A Revolução dos Bichos e a ficção científica Trilogia da Fundação.

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Sobre adsonamt

Advogado, servidor público, leitor inveterado, decidi criar esse blog para curtir um período sabático escrevendo sobre o que gosto de fazer. Minhas paixões: livros, chás, gatos, comida boa, música, board games e seriados (não necessariamente nesta ordem, depende da vibe do momento).

11 pensamentos sobre “1984, de George Orwell.

    • Gabriel, as distopias me fascinam! E ainda mais quando são tão atuais mesmo que sejam do século passado. 1984 perturba mesmo o juízo do leitor. E quanto mais politizado ele acha que é, maior o grau de incômodo, não é mesmo?
      Obrigado por acompanhar nosso blog!

      Abraço do tio.

      Curtido por 1 pessoa

  1. Bela resenha!
    Esse Livro é muito bom, foi ele que me abriu portas para conhecer melhor tanto o autor quanto outras obras dele que cheguei a ler. É incrível como George Orwell consegue captar toda essa relação de jogo de poderes que é predominante na sociedade e no homem, independente do passado, presente ou futuro sempre existirá grandes potencias, famintas por poder e que vão coagir sociedades a seguir o padrão que achar necessário para ter mais e mais poder.
    https://somaisumaleatorio.wordpress.com/

    Curtido por 1 pessoa

  2. Muito legal, adorei a resenha, ainda mais por ser um livro que certamente lerei ainda. Do Orwell li A Revolução dos Bichos e adorei, faz um tempinho, talvez já esteja na hora de ler novamente! Sobre o que você falou no começo, acho que as pessoas se empolgam com isso de “spoiler”. Spoiler existe sobre algum livro novo em que se espera o que vai acontecer, e talvez esse acontecimento seja o único atrativo do livro, para os clássicos, acho que quanto mais embasamento, melhor!! É ingenuidade querer uma leitura solitária desses livros.
    Abraços!!
    http://1pedranocaminho.wordpress.com

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    • Olá Val! Obrigado por acessar o glorioso GN! Seja sempre bem vinda e volte sempre! Eu acho que a leitura, mesmo que não seja de um livro clássico, é algo muito individual. Cada leitor busca em uma obra aquilo que acrescenta em sua vida, por isso, muitas vezes, um spoiler pode não significar muita coisa. Eu não me importo muito com revelações de enredo porque sei que ninguém terá a mesma experiência de leitura que eu tive. Isso ficou muito nítido pra mim quando li O Demonologista e adorei. Aconteceu também com Fundação, pois meu ponto de vista ficou mais concentrado nas questões de plano de fundo que no romance em si…
      Mas enfim! Não vamos escrever um tratado sobre spoiler né? kkkkkk

      Abraço do tio!

      Curtido por 1 pessoa

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